
Ensaio Sobre Carolina trata de questões raciais no Projeto Vitrine
Grupo formado por atores negros da EAD leva para o palco história
da catadora de papel que gerou livro e causou comoção pública quando lançado.
O preconceito e as desigualdades das relações são tratados com elementos do teatro, dança e cultura afro
Baseado no diário da catadora de papel Carolina Maria de Jesus (1914-1977) publicado em livro com o título Quarto de Despejo, Diário de Uma Favelada (Ed. Ática), a peça Ensaio Sobre Carolina reestreia dia 17 de setembro, quinta, às 21 horas, na Sala Vitrine do Teatro Imprensa. O espetáculo faz parte do terceiro e último módulo do ano do Projeto Vitrine Cultural do Centro Cultural Grupo Silvio Santos. No primeiro mês da temporada, o ingresso é uma lata de leite em pó. Depois, passa a custar R$ 10,00 e R$ 5,00.
A montagem da Cia Os Crespos, sob a direção de José Fernando de Azevedo – especialmente convidado pelo grupo -, utiliza a dança, o canto e o corpo como linguagem. A Cia surgiu na EAD (Escola de Arte Dramática da USP), numa turma de alunos onde cinco integrantes eram negros. Houve uma organização desses alunos, que tinham em comum a vontade de discutir a sua formação e como foco estudar a história do negro nas artes cênicas no Brasil, numa instituição em que essa discussão não existia.
O lugar dos negros na sociedade atual é o foco da pesquisa da Cia Os Crespos. “O teatro passou ao largo de temas como esse; ou, ao menos, não os tratou de maneira direta. Talvez aí esteja a tarefa de um grupo de atores negros”, comentam. A denúncia social, o preconceito e as desigualdades das relações sociais modernas atreladas à escravidão, determinada como uma engrenagem do capital, são tratados pelo grupo.
O Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, pareceu um bom ponto de partida para trazer à cena tais questões que, na história, são apresentadas através da fala de uma negra favelada: o olhar e o discurso da catadora de papel sobre sua realidade e o convívio na sociedade brasileira. Para o grupo, Ensaio Sobre Carolina “é o discurso de atores negros sobre os vestígios dos dias na vida das Carolinas na cidade”.
Proposta de encenação
O diário e o livro de Carolina Maria de Jesus foram o ponto de partida para a construção da narrativa. O grupo, então, convidou o professor da EAD José Fernando de Azevedo, não por acaso único professor negro, para dirigir o espetáculo. Depoimentos de alguns atores do grupo foram incorporados a trechos dos relatos de Carolina. O diretor aproxima atores e espectadores em um campo público e afasta o tom sentimentalista confessional para criar um espetáculo em que a música e o corpo se tornam linguagem. Gestos de dança clássica são mesclados a ritmos de candomblé. “As intervenções das linguagens surgem como depoimento das mais variadas formas. Seja contradizendo o próprio texto, de forma ironizada ou completamente sincera. Mas sempre surpreendendo o publico“, conta a atriz Gal Quaresma.
Os caminhos da autora e do grupo se encontram: uma autora negra, pobre, falando de sua própria condição, narrando o percurso em que uma fala se esboçava. Mas não era possível simplesmente representar Carolina. “O que nos tocava ali e se fazia urgente era a escuta de um argumento”, explicam . “E foi assim que se configurou a idéia de um ensaio: uma tentativa de aproximação e apropriação daquela fala que, posta em movimento, desenhava um gesto próprio contra o ressentimento.”
A história de Carolina
Quarto de Despejo, Diário de Uma Favelada, lançado em 1960, virou comoção pública em São Paulo, com a tiragem de 14 mil exemplares esgotada rapidamente, sendo traduzido para 13 idiomas. Marcada pela pobreza, Carolina estudou até a segunda série do primário, era moradora da favela do Canindé e catadora de papel. Através de relatos sobre sua vida na favela, das dificuldades para criar os três filhos, a autora delata algumas estruturas sociais brasileiras, da época da modernização da cidade de São Paulo e da criação de suas favelas e, também, revela com sua escritura a importância do testemunho como meio de denúncia.
Com o sucesso, ela e os filhos saíram da favela e compraram uma casa em Santana. Os novos vizinhos a rejeitavam, os curiosos espiavam, alguns vinham pedir-lhe dinheiro, e carros estacionavam na frente da residência para vê-la. Fotógrafos e jornalistas invadiam sua casa solicitando que ela posasse ao lado dos filhos ou no chão lendo. A imprensa nacional e a opinião geral criaram muitas “histórias” sobre Carolina.
A mídia estrangeira tratava sua experiência em termos humanos apontando sua capacidade de dimensionar a miséria social e a coragem de apresentá-la publicamente. O Jornal Herald Tribune qualificou o livro como “uma assombrosa crônica da fome, um dramático documento sobre os despossuídos, que, ao mesmo tempo, choca e comove os leitores”. A revista Life dedicou uma página inteira a ela, a Paris Match fez uma grande reportagem sobre sua história. Alberto Moravia, na introdução assinada para a versão italiana, contrastava a beleza natural do Brasil com a horripilante realidade brasileira dos pobres, aproximando inclusive a vida dos favelados às “castas dos párias” da Índia. No prólogo da edição da Casa de las Américas de 1965, com reimpressão em 1989, o cubano Mario Tejo identificou em Carolina a consciência profética e criadora de uma “subliteratura que brotava do solo do subdesenvolvimento”.
Em 1961, ela lançou seu segundo livro, Casa de Alvenaria: Diário de Uma Ex-favelada, obra bem parecida com o Quarto. Não obteve o mesmo êxito. Passados seis anos do estrondoso sucesso, com pouco dinheiro, pois não quis ceder aos editores que lhe pediam para escrever assuntos novos, ela voltou a se aproximar da miséria, sendo, inclusive, fotografada pegando papel nas ruas. Carolina ainda escreveu um pequeno romance, Pedaços da Fome. A imprensa ignorou. A escritora sofreu para receber os direitos autorais de seus livros. Em seus relatos, denunciava que, exceto a França e os Estados Unidos, ninguém lhe pagou nada.
O livro inspirou também um filme realizado por uma televisão da Alemanha Oriental, em 1975, que utilizou a própria Carolina como protagonista de Despertar de um Sonho (censurado na época e ainda inédito no Brasil). Na mesma década, foi feita uma adaptação para a série Caso Verdade, da Rede Globo, com a atriz Ruth de Souza. Carolina morreu em 1977, por um abatimento respiratório, aos 63 anos de idade.
Sobre o grupo
Os Crespos surgiu nas dependências da Escola de Arte Dramática da USP (EAD) em 2005. No dia 13 de maio, dia da abolição da escravatura, o grupo começou suas atividades com o objetivo de levar para a escola a discussão sobre o que foi e o que representou para o país a assinatura da Lei Áurea. Na semana da consciência negra o núcleo promoveu o encontro Pensando a Negritude, um evento para discutir como o negro foi inserido na história artística do país, e qual o papel que ocupa hoje na sociedade. O evento contou com uma mostra de curtas-metragens do cineasta Jeferson De (Narciso do Rap, Carolina, e Distraída pra Morte), uma exposição permanente chamada Traços e Relatos, e uma mesa-redonda com atores, diretores, dramaturgos, professores e alunos.
Em setembro de 2006, o grupo participou do II Fórum Nacional de Performance Negra, evento organizado pelo Bando de Teatro Olodum, Cia. dos Comuns e Congresso de Pensadores Negros, em Salvador. O grupo foi convidado a trabalhar com um dos maiores encenadores da atualidade, o alemão Frank Castorff, diretor do Volksbühne (o Teatro do Povo, construído em 1914 por associações operárias e que continua a ser um dos espaços mais influentes do teatro europeu). Em dezembro de 2006, apresentam o espetáculo Anjo Negro + A Missão, no Sesc Vila Mariana. Em novembro do mesmo ano, O Grupo promove, em parceria com o Cinema Popular da escola de Áudio Visual da Eca, um evento para discutir a política de ações afirmativas: Cotas nas Universidades Públicas. O evento contou com a presença das atrizes Ruth de Souza, Raquel Trindade, a cineasta Lílian Solá Santiago, José Carlos Miranda (coordenador do Movimento Negro Socialista), Ana Lúcia Lopes (Coordenadora do Museu Afro Brasil), a poeta e escritora Esmeralda Ribeiro (Fundadora do Quilombhoje), entre outros.
Em 2007 o grupo excursionou pela Alemanha, participou do Festival Theaterformer e uma curta temporada no Teatro Volksbühne, em Berlim. No mesmo ano a cia estreou Ensaio sobre Carolina com a direção de José Fernando de Azevedo (professor da Escola de Artes Dramáticas da USP, dramaturgo e diretor integrante do Teatro de Narradores em São Paulo) com apoio do PAC (Projeto de Ação Cultural-Secretaria de cultura do Estado de São Paulo). Em 2008 o grupo apresentou Anjo Negro + A Missão em Salamanca no Festival Castilla y Lion. Em maio de 2009 a Cia realizou, juntamente com o Grupo Clariô, a Mostra Reflexiva de Filmes em ocasião do dia Nacional de Denúncia contra o Racismo. Em junho participou do III Fórum de Performance Negra em Salvador/Ba.
(Adriana Balsanelli/julho 2009)
Para roteiro:
ENSAIO SOBRE CAROLINA – Reestreia dia 17 de setembro, quinta, às 21 horas, na Sala Vitrine do Teatro Imprensa. Adaptação e Criação de Texto – Os Crespos e José Fernando de Azevedo. Direção – José Fernando de Azevedo. Elenco - Maria Gal (Ex Gal Quaresma), Joyce Aparecida, Lucélia Sérgio, Mawusi Tulani e Sidney Santiago. Músico - Giovanni Pereira. Trilha Sonora - Giovanni Pereira e Os Crespos. Preparação Corporal - Lívia Guerra. Preparação Vocal - Ana Gilli. Cenografia - Os crespos. Figurino - Os Crespos. Iluminação - Denílson Marques e José Fernando de Azevedo. Censura – 14 Anos. Duração – 100 minutos.
Ingressos – De 17 de setembro a 9 de outubro – 1 lata de leite em pó, que deve ser trocada por 1 ingresso na bilheteria do Teatro com 1 hora de antecedência. De 15 de outubro a 4 de dezembro - R$10,00 e R$5,00 (meia entrada). Temporada – quintas e sextas às 21 horas. Até 4 de dezembro.
Teatro Imprensa – Sala Vitrine - Rua Jaceguai, 400 - Bela Vista - São Paulo. Fone - 11 3241- 4203. Capacidade – 48 lugares. Funcionamento da bilheteria - De terça a domingo a partir das 14 horas. Acesso e facilidades para pessoas com deficiência física. Ar-condicionado. Formas de pagamento - Aceita pagamento em dinheiro e cheques. Estacionamento conveniado na Rua Jaceguai, 454 – Preço único R$ 8,00. Ingressos por telefone – Ticketmaster – (11) 2846-6000 (de segunda-feira a sábado, das 9 às 21 horas) ou pelo site www.ticketmaster.com.br.
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